Rechonchudo tal qual seu personagem principal, a pseudo-biografia proposta por Nelson Motta para o folclórico Sebastião Rodrigues Maia é, antes de tudo, uma lição de transgressão. Trangressão àquilo que a sociedade (e nós mesmos) costuma considerar como normal, ideal e correto.
Ora, que Tim Maia e “o padrão” nunca foram melhores amigos, disto todo mundo já está calvo de saber, mas onde é que essa história de lição entra nisso tudo? A transgressão que Tim apresentou ao Brasil é a prova de que não se comportar da forma como esperam de você não tem nada de errado: desde que esta seja a forma como você queira se comportar.
Apesar de suas inúmeras incoerências com o comportamento louvável, Tim consagrou-se ao longo de sua carreira e na história da música brasileira como ícone do soul, cantor de potencial explosivo e qualidade técnica aprimorada. Uma das principais referências musicais do Brasil. Conquistas incontestáveis a um negro pobre vindo da periferia do Rio de Janeiro.
Filho mais novo de uma ninhada de 9 filhos da Tijuca, o pequeno Tião Marmiteiro (como era conhecido no bairro) ajudava no sustento da família entregando as quentinhas preparadas pela mãe na vizinhança. Como não poderia deixar de ser, desde já, Tim deixava sua marca nas entregas, seja atrasando algumas horinhas para curtir a pelada no campo de várzea, seja provando algumas das delícias encomendadas pelos fregueses à família Maia.
Apaixonado por música desde pequeno, montou com uns amigos do bairro (uns tais de Erasmo e Roberto Carlos) seu primeiro conjunto musical: The Sputniks. De carreira extremamente precoce, o quarteto liderado pelo gogó do gorducho Tião, teve seu auge (e seu fim) no programa de auditório de Carlos Imperial, comunicador que lançou boa parte de uma geração inteira da MPB, como Jorge Ben e Wilson Simonal, além dos próprios integrantes dos Sputniks. O sucesso da apresentação foi tanto que um dos seus integrantes – o bom-moço Roberto – decidiu apresentar a Imperial uma versão sua para um clássico do rock n’roll americano nos bastidores. A apresentação lhe rendeu, de imediato, um convite para o programa seguinte, só que desta vez em apresentação solo. O sucesso do companheiro de conjunto logo enfureceu o Tião – que àquelas alturas já havia sido batizado por Imperial como Tim -, que quebrou o pau com Roberto em frente aos estúdios. Era o fim dos Sputniks.
Daí pra frente, a mambembe vida de Tim Maia colecionou uma série de causos que contribuiu para a formação de uma das personalidades mais controversas e adoradas da música popular brasileira. Partindo de uma viagem aos Estados Unidos aos 16 anos, de onde voltou deportado, passando por uma incursão a uma seita que acreditava em discos voadores, Tim foi, do início ao fim, alguém fora dos padrões.
É claro que, psicologicamente, esta não foi uma situação fácil de ser encarada pelo rei do soul do Brasil. O permanente (permanente mesmo) refúgio nas drogas, foi um caminho o qual Tim seguiu do começo ao fim da carreira. Em uma das passagens de Vale Tudo, Nelson Motta revela o bizarro momento no qual Tim, devidamente vigiado por duas de suas fiéis escudeiras (foram muitas ao longo da sua conturbada vida afetiva), acendeu um baurete (forma carinhosa como batizava um baseado) na sala pós-operatória do hospital onde havia se operado horas antes.
Ah, vale salientar que, no dicionário Maia, os bauretes se encontravam na mesma categoria dos Garrastazu, pequenos locais escondidos (seja onde for), onde seria possível “acender unzinho” sem chamar a atenção dos curiosos. O nome era uma homenagem a Emílio Garrastazu Médici, um dos generais-presidentes do Brasil, homem ao qual Tim costumava elogiar por sua discrição.
A forma como Nelson Motta classifica Tim Maia ao longo do livro é singela. Amigo, músico inigualável, crooner exigente, bêbado, drogado irrecuperável, escandaloso convicto, mau-pagador, passador de cheques sem-fundo, entre otras cositas más. Através de uma série de causos, desenha a vida e obra de Tim Maia como uma série de expressões de um alguém que não se encaixava em nenhum dos padrões apresentados pela sociedade, mas que, porém, era amado por boa parte dela.
Vale tudo: o som e a fúria de Tim Maia é leitura obrigatória para quem curte a obra deste grande artista e facultativa a quem busca lidar com a transgressão de forma amigável e companheira. Só não vale seguir 100% das recomendações do Professor Maia.
Algumas boas de Tim transcritas no livro:
“Faço música de preto. E os pretos precisam se convencer de que chegaram ao mundo dos brancos acidentalmente, em navios negreiros. Olha só isso que chamam de movimento Black Rio: os negros não passam de xérox dos americanos, que, por sua vez, imitam os brancos. Não sacam que o negócio é voltar para a África.” Declaração sobre seu álbum Tim Maia Disco Club.
“O segredo do meu sucesso é o equilibro: metade das minhas músicas é esquenta-sovaco e metade é mela cueca” Durante o auge radiofônico de sua carreira, assinando contrato com uma nova gravadora.
“Ô Nelsonmotta, se eu não fosse doidão seria um dos maiores intérpretes da América do Sul e do Norte e talvez da Europa, estaria sentado numa limusine, com um secretário tailandês e outro hindu, vestidos a caráter, no banco de trás. Por ser doidão, eu mesmo dirigiria o carro.” Após uma conversa filosófica com o amigo, regada a várias rodadas de pizza no Baixo Leblon.
“Você está maluca, sua magnética? John Lennon é uma besta e Raul Seixas uma cópia xérox da burrice. Eles são dois quadrúpedes que só querem justificativa para curtir suas loucuras. É vigarice das brabas!” Em entrevista concedida durante sua fase Racional, quando perguntado se a seita era alguma coisa parecida com a Sociedade Alternativa de Raul e Paulo Coelho.
“Tu toma cuidado, hein, magrelo. Nego cheira cocaína e fica logo com vontade de dar o cu, cocaína afrouxa o brioco, mermão!” Palavras missionárias do Racional alguns dias antes, tentando converter Raul à seita.
“Estratégia!” Código berrado por Tim para a banda quando alguma coisa não dava certa e era hora de partir sem deixar vestígios.


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